Athletico se envolve cada vez mais em novelas nas janelas de transferências, mas o real problema, a principal novela, já é vivida há muitos capítulos
Ano após ano um problema de dentro do Athletico tem afetado o externo do clube, sua torcida. Isso porque os atleticanos têm se irritado cada vez mais com as janelas do Furacão. Se não pela qualidade das peças contratadas – já que por muitos anos se pede que o Athletico invista um pouco mais por craques ou jogadores mais consolidados -, agora pela falta de contratações e o número crescente de novelas.
A cada janela, um novo capítulo é adicionado. Capítulos que têm se tornado longos demais, pedindo um exercício de paciência que o torcedor já não quer mais ter. Ainda mais com tudo que aconteceu nos últimos anos. Desde o rebaixamento em 2024, em que o Athletico decide por não reforçar o time no meio do ano e acaba sofrendo as consequências dessa escolha, o mercado só preocupa. O susto foi grande, como realmente um rebaixamento é. O trauma do descenso não deixou marcas apenas no torcedor, deixou também na diretoria, porém sem o efeito necessário.
O que deveria ter acontecido é um Athletico que quer aprender com seus erros. Entendeu que a demissão e troca constante de técnicos foi um fator determinante para o descenso, ok. Mas não só… a janela feita no início do ano e que achava-se suficiente, não foi. E o clube decidiu de que tratava-se de gastar demais. Foram 10 jogadores e mais de R$80 milhões gastos. Olhou, novamente, apenas para o financeiro. Esquece, novamente, do aspecto esportivo. Da qualidade.
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Sim, quando vieram Mastriani, Gamarra e Léo Godoy foram boas contratações. O risco, quando analisado, dizia que se valia a pena. Mas, como todo risco, continua sendo um risco, e os três não corresponderam. Deram errado. Mastriani, aliás, em mais uma longa novela até se definir a vinda, chegando já com a torcida irritada pelo tempo que demorou. Benítez, Petterson, Di Yorio, Felipinho, Zé Vitor, Nikão e Gabriel foram os outros nomes na janela, os três últimos puxados no mercado dos estaduais. Benítez e Petterson contratações que não fizeram muito sentido já para a própria torcida. Di Yorio, uma carta branca dada ao técnico Osorio e cerca de R$12 milhões gastos em um jogador que as análises já diziam que não iria ter o impacto que o time precisava, e ainda entregou seus gols. Felipinho, destaque na série B, custando cerca de R$7,5 milhões, com os anos não conseguiu evoluir. Nikão, no seu retorno, muito abaixo e acabou atrapalhando nos bastidores. Gabriel, o Ruf Ruf, veio completamente questionado e contribuiu. Zé Vitor, pedido por Cuca, emprestado do Maringá, não deu certo.
A grande verdade é que podemos dizer que não houve planejamento. O Athletico não pecou por conta de dinheiro gasto, mas por falta de pensar futebol. Por falta de entender como queria jogar e entender quais peças poderiam agregar. Fez uma janela em que metade das contratações não faziam sentido. Caiu. E na janela para a série B, novamente, priorizou o financeiro. Quis se desfazer de todo o elenco e jogar a culpa em alguns rostos. Se desfez de tudo, porque o rombo nos cofres que uma série B causa é grande, só não maior que permanecer nela. E aí decidiu por gastar menos e também pensar menos no futebol. Achou que a camisa do Athletico subiria por si só, que o nível seria fácil.
Em 2025, trouxe Raul (volante), Luiz Fernando (atacante), Hayen Palacios (lateral), Léo (zagueiro), Falcão (volante), Leozinho (atacante), Isaac (atacante), Alan Kardec (atacante), Dudu (lateral), Kevin Velasco (atacante), Santos (goleiro), Giuliano (meia), Patrick (volante), Tobias Figueiredo (zagueiro), Tevis (atacante), Renan Peixoto (atacante), Peralta (volante), Habraão (zagueiro). Uma janela com poucos gastos, mas alguns consideráveis tratando-se do nível do jogador. R$12 milhões na contratação de Léo Pelé, com a desculpa de receber por Hugo Moura do Vasco e levando um drible do clube carioca que entrou em Recuperação Judicial e o Athletico que teve que pagar pelo zagueiro. R$4,8 milhões a serem pagos pelo lateral Dudu, ao Fortaleza, devido a uma cláusula contratual de acesso a série A que só foi descoberta após o final da temporada. Só para citar exemplos.
O resultado? O clube precisou gastar na janela da metade do ano, porque estava vendo o time quase cair para a série C. Teve que trocar de técnico, porque havia fechado com o primeiro nome que aceitou. Não sabia como queria e deveria jogar. Novamente, não houve planejamento. E aí chegou Odair Hellmann, que começou a ser a pessoa a pensar futebol dentro do clube. E o Athletico teve que contratar reforços em todos os setores. Foram mais seis reforços trazidos: Kevin Viveros, reforço mais caro da história do clube, custando 5 milhões de dólares (mais de R$ 27 milhões); os zagueiros Felipe Aguirre e Carlos Terán, o lateral-direito Gastón Benavídez, o volante Élan Ricardo e o atacante Steven Mendoza. Não sem novelas, claro, já que Élan Ricardo veio como praticamente a décima opção para a posição que Odair tanto pediu e o plano A, Lucas Sasha, com tudo certo para vir, acabou dando errado. Não sem antes isso levar semanas para definição.
E, com o milagroso acesso para a série A, o que se esperava é que em 2026 o Athletico entendesse a necessidade de se desfazer, mais uma vez, de jogadores e ter que remontar um elenco para o nível que a série A pede. E o que se viu foi um Athletico tendo que se livrar de péssimas contratações feitas e não pensadas no início da série B, tendo que lidar e aceitar, inclusive, com certos prejuízos – provando que o barato pode sair muito mais caro. E, na hora de contratar, trazendo apenas cinco reforços, que de reforços mesmo são apenas três: Alejandro García (que ainda não se entende a vinda), Gilberto (inicialmente para os aspirantes, performou, mas o clube continua atrás de um lateral?), Portilla, Jadson e Luiz Gustavo – esses, sim, para o principal.
E paramos aqui. Desde o dia 23 de janeiro, em que Luiz Gustavo foi apresentado, sem novidades. Só novelas. Lucas Sasha ressurgiu, o ponta Cetré – esse daria uma série cômica -, as idas e vindas do nome do zagueiro Cacá e… nada. Janela fechou, nenhuma contratação, mesmo o time tendo carências claras no elenco. E a desculpas dada agora? De que a janela do meio de 2025 foi feita pensando em série A. Mais uma das mentiras inventadas para leigo acreditar. Naquele momento, a série A era questão de milagre, como foi até a última rodada.
Agora com as prováveis saídas de Habraão e Léo, necessitando mais do que nunca de um zagueiro, decide ir acertadamente em Dantas, do Novorizontino, mas apresenta uma proposta de dar risada ao clube paulista quando já sabia das condições que o Tigre queria. Parecendo não entender o momento de alerta que vive. Precisa, ainda mais urgentemente, de um centroavante reserva. Renan Peixoto e Mastriani não renderam no Paranaense – coisa, aliás, que parece que o Athletico colocou todas suas fichas para não ter que ir ao mercado. E, mesmo assim, a morozidade do clube assusta demais. O torcedor, que pode ser mais entregue à emoção, sem ser especializado no futebol, consegue enxergar as carências. Se preocupa, se irrita, e com razão.
A verdade é que a verdadeira novela irritante que estamos vivendo tem sido as decisões, ano após ano, dos responsáveis por essas janelas. Dos responsáveis que deveriam pensar futebol, mas não entendem – ADMITIDAMENTE – do esporte. Dos responsáveis por contratarem Mazzucos, Possebons (contratado pra base e parando de paraquedas no profissional) e Freelands (esse pecando mais na insuficiência e morozidade). A verdadeira novela vivida pelo torcedor atleticano, na verdade, já dura anos. Capítulos e capítulos de ver apenas o financeiro ser levado mais em conta do que qualquer outra coisa. E, mesmo assim, com decisões financeiras duvidosas.
Quantos mais capítulos o torcedor terá que aguentar? Quantas temporadas vividas de traumas e lições sendo mencionados, mas aprendizado nenhum parece ter sido adquirido? Uma coisa é certa, eleições são previstas para 2027. O problema é entender o que os novos capítulos nos reservam até lá…