Bruno Guimarães e Rony, os rebeldes que todo time precisa

Compartilhe

Em um jogo de espaços reduzidos e obstáculos constantes, atletas que buscam o diferente costumam decidir

Há muitos anos, o futebol era mais ‘livre’. O tempo e o espaço que jogadores de praticamente qualquer posição tinham traziam particularidades que foram mudando conforme as coisas evoluíram. Existem filosofias, sistemas e táticas que vieram à tona neste século e permanecem até hoje, mas um conceito sobressai: a compactação.

 

Times conseguem ter sucesso com uma linha de marcação alta ou baixa. Três zagueiros, alas que viram pontas ou pontas que viram alas. Trocando passes para cansar o adversário ou abusando da verticalidade. Mas ninguém atinge posições de topo sem compactação. É necessário que as peças sejam distribuídas de modo que potencialize o entrosamento dos principais jogadores e, claro, reduza as possibilidades para o oponente quando sem a posse de bola.

 

Tragamos o tema para a realidade do Athletico. Seria interessante abordar a atitude de Tiago Nunes com tal conceito, mas essa missão fica para outro post. Aqui, quero que você faça um exercício de lembrar situações recorrentes em nossos jogos: os rivais, cada vez mais cientes dos perigos que estão enfrentando, se unem de uma maneira complicada de superar. Não importa se é o Boca Juniors ou o Vasco.

 

Quando o time parece ‘preso’ dentro de suas limitações e a estrutura adversária, eles aparecem (Foto: Reprodução/MW Futebol)

 

Seja pressionando mais à frente com os atletas em conjunto ou retraindo a marcação, de vez em quando conseguem reprimir a intensidade que nos acostumamos a ter e equilibram as partidas. Aumenta a dificuldade para encontrar espaços e construir jogadas com os artifícios que a equipe pratica nos treinamentos. No geral, o time continua desempenhando as ações rotineiras, cada um com sua função e intenção coletiva. Ficamos relativamente travados. Aí entra, portanto, a figura dos ‘rebeldes’ Bruno Guimarães e Rony.

 

São jogadores que, cada um a seu estilo, fogem da ‘mesmice’ e procuram soluções diferentes para nos colocar em vantagem. Saem um pouco daquele roteiro ensaiado – que é sinal de uma equipe bem treinada, claro – e deixam algo que podemos chamar de ‘liberdade criativa’ tomar conta de seus movimentos. É um estado reservado aos melhores, aqueles que podem até entender da importância do que está na prancheta – ou tablet – do treinador, mas leem a essência do jogo ao natural e fazem acontecer.

 

Por exemplo, uma hora ou outra ficamos dependentes da visão de alta categoria do camisa 39. O que acontece? Vemos ele flutuando por qualquer setor do campo e, sem mesmo precisar pedir, evidenciando que quer a bola, tendo como objetivo estar com o jogo sob controle para agredir. Então busca suas tacadas de gênio de todos os jeitos. A ultrapassagem dos laterais, o pivô de Ruben ou alguma infiltração na área. Quando não vai no passe, está totalmente disposto a conduzir até que as brechas apareçam. Até cruza quando cai pelas pontas.

 

Junto com Rony, Bruno pode até errar, mas nunca vai deixar de arriscar. E isso faz diferença (Foto: Divulgação/Athletico-PR)

 

Enquanto isso, a cada ato de Rony conseguimos sentir o quanto ele busca se diferenciar e surpreender nesse cenário ‘morno’ criado pelo adversário. Se ele impera organicamente quando o ritmo é mais caótico e temos espaço para atacar, nesses momentos de marcha reduzida o paraense funciona como um turbo. Independentemente da posição que está, lá no fundo só enxerga o gol e sempre vai atrás dele. Já domina direcionando a jogada pra frente, aproveita de sua explosão pra levar a melhor em duelos individuais e finaliza do primeiro ângulo que encontrar.

 

Até suas assistências costumam vir com cruzamentos de técnica semelhante à do chute. Basta ao atacante que está na área fazer contato para a bola venenosamente completar sua trajetória até a meta. E não está imune aos erros. Pelo contrário. Erra bastante pra acertar bastante. Ele e Bruno jogam com coragem e não se deixam abater se a jogada não for pra frente na primeira tentativa. Insistem, contagiam os companheiros e o torcedor e são fundamentais para passarmos por cima de qualquer sistema de marcação que encontramos.

 

Apesar da essência do futebol brasileiro estar exatamente nessa ‘liberdade criativa’, atualmente temos muitos times monótonos e uma atitude restritiva ao melhor dos jogadores. Não sempre, claro, mas é um fator existente. Cansamos de ver equipes que param diante dos obstáculos por justamente não terem na cartilha de instruções as respostas para problemas aleatórios que surgem durante as partidas.

 

Entrosamento dentro e fora do campo (Foto: Reprodução/Athletico-PR)

 

Nessas horas fica claro o peso daqueles que saem da normalidade e buscam dar vida ao jogo através de suas próprias intenções. E é por isso que sobram motivos para apreciarmos a ‘rebeldia’ de Bruno Guimarães e Rony.

 

Veja também