Colômbia ensina brasileiros o real significado de torcida humana

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Marcos Guérios

 

Humanizar a torcida: esse é o objetivo do presidente do Conselho Deliberativo do Atlético Paranaense, Mario Celso Petraglia, quando firmou um acordo com o Ministério Público do Paraná para que todos os jogos na Arena da Baixada sejam com “torcida única”. A ideia é controversa, pois ao mesmo tempo que busca mudar a concepção de como torcer, também proíbe que os torcedores adversários entrem no estádio com a camisa do seu clube, por ser um “objeto que pode causar transtorno”

 

O argumento central de Petraglia gira em torno de não confinar os torcedores adversário em um setor exclusivo para que eles possam, simplesmente, torcer. Pelo contrário, a diretoria do rubro-negro preferiu diluir os visitantes no meio da torcida atleticana, sem mais cordões de isolamento e policiais destinados para separação da arquibancada. O argumento do Ministério Público é a diminuição do efetivo policial deslocado para os estádios.

 

A medida vale desde o dia 16 de maio, quando Atlético Paranaense e Cruzeiro jogaram pelas oitavas de final da Copa do Brasil, e cerca de 50 torcedores do time mineiro se reuniram na curva da Coronel Dulcídio superior com a Brasílio Itiberê, confinando-se sem cordão de isolamento e torcendo juntos. Felizmente nada aconteceu, mas a cena se repetiu em outras oportunidades ao longo dos jogos.

 

Contra o Internacional, por exemplo, um grupo de torcedores colorados foi fortemente hostilizado e teve que se retirar do setor onde estavam vendo a partida, na Brasílio Itiberê Superior. Eram, aproximadamente, cinco torcedores que acabaram comemorando o gol da sua equipe e tiveram que sair do local para não agravar a situação, que mais uma vez estavam reunidos e não diluídos.

 

Contra o São Paulo, alguns torcedores do clube paulista também se reuniram na Coronel Dulcídio Superior. A torcida do Corinthians foi além, eles obrigaram que os seguranças do clube separassem as torcidas na Coronel Dulcídio Superior, setor onde os adversários eram maioria, e assistiram a partida confinados em um setor – torcendo juntos.

 

No jogo considerado de maior risco para a segurança, entre Atlético Paranaense e Paraná Clube, a Delegacia Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos (DEMAFE) registrou dois boletins de ocorrência, um por agressão e outro por incitação de tumulto, com torcedores paranistas. Um deles chegou a ser agredido durante o segundo gol atleticano por não ter comemorado.

 

No dia 21 de setembro, a Tribuna do Paraná fez uma reportagem utilizando números das ocorrências que haviam sido registradas nos jogos do Furacão em casa: até setembro tinham sido disputados 10 jogos no sistema de torcida única e sete boletins de ocorrência por lesão corporal foram feitos dentro do estádio. O levantamento era anterior ao jogo contra o Paraná, o que aumentaria essa conta.

 

A assessoria de imprensa da Polícia Civil foi procurada pela reportagem, mas preferiu não se pronunciar sobre o tema “torcida única” e não deu autorização para acessarmos os dados atualizados.

 

A cultura da arquibancada acaba impedindo que o “projeto de humanização” da torcida atleticana tenha resultados mais animadores a curto prazo, porque, talvez, a solução para a violência no futebol não seja tão simples. A Colômbia, por exemplo, pensa na humanização do futebol como um todo, em escala nacional. Tivemos a prova disso na última quarta-feira (5), quando centenas de torcedores atleticanos foram recebidos com fotos, pedidos de troca de camisas e abraços pela torcida do Junior Barranquilla, na Colômbia.

 

Torcedores em clima de amizade na Colômbia. Foto: Marcos Guérios

 

 

O comportamento da torcida colombiana foi exemplar e impressionante. Em nenhum momento a torcida atleticana foi hostilizada ou agredida, pelo contrário, era como se fossem celebridades no país e todos queriam tirar fotos. Não satisfeitos com a recordação fotográficas, os tiburones (tubarões) pediam incessantemente para que houvesse troca de camisas com eles. Ao fim da partida o cordão de isolamento que “separava” os atleticanos foi rompido para que os colombianos tivessem mais facilidade para trocar camisas e tirar fotos com os brasileiros.

 

O clima e educação dos hermanos é algo impressionante. O taxista Eduardo Perez conta que os colombianos são muito apaixonados pela festa que o futebol proporciona e que todos tem uma grande admiração pelo futebol brasileiro, “Os colombianos gostam muito de futebol, sempre que a seleção local joga a cidade praticamente para para ver. Também somos muito apaixonados pela Seleção Brasileira e seu jeito de jogar futebol, com bons atacantes e muito drible. Nos agrada demais”, afirma.

 

Os barranquilleros (nascidos na cidade de Barranquilla) são malucos pelo Júnior, que por ser o único time da cidade carrega a identidade do povo local. Barranquilla é uma das cidades mais populosas da Colômbia, contando com 1,218 milhões de habitantes, e aparentemente todos eles torcem para o time local. Táxis, caminhões de serviço da prefeitura, hotéis e lanchonetes trazem as decorações no vermelho e branco do time. Eduardo comenta que a paixão pelo Júnior é algo muito forte da cidade e que ver a equipe chegar em uma final continental é histórico para eles. “O Júnior é uma equipe grande dentro da Colômbia, mas internacionalmente ainda não conseguiu ganhar. A cidade se mobiliza muito pelo clube, aqui todo são Júnior e torcem muito”, revela.

 

Alfonso Diaz, um torcedor do Júnior, explica que a paixão pela equipe é maior do que qualquer rivalidade, mas que em jogos internacionais o clima é realmente diferente e mais pacífico. “Amamos muito o Júnior e o jeito que jogamos futebol, mas os brasileiros também são muito bons e difíceis de se enfrentar. Esse clima de hoje só está acontecendo dessa maneira porque são brasileiros, se fossem torcedores de outros times colombianos ou argentinos não seria assim”, ressalta.

 

Na Colômbia já se pensa no processo de humanização da torcida a mais tempo e de uma maneira nacional. Em 2014, o governo do presidente Juan Manuel Santos uniu esforços dos departamentos de polícia, Ministério da Educação, Ministério do Interior, Federação Colombiana de Futebol e Organizações Não Governamentais para criar o Plano Decenal de Comodidade e Conveniência no futebol. Esse plano visa se utilizar de recursos, inteligência e práticas públicas durante 10 anos (2014-2014) para erradicar a violência do futebol colombiano.

 

O plano entende o futebol como algo cultural do país e ferramenta para mudança social, não apenas de quem está em campo, mas também do convívio nas arquibancada. O plano define futebol como um símbolo de festa, identidade regional e nacional, correção social entre outras atribuições. A política pública nesse caso fez a diferença dentro dos estádios colombianos.

 

Na opinião de Ávila, um dos policiais que fez a separação das torcidas, a violência nos estádios colombianos já não é mais tão grande, mas nos últimos anos tem sido quase inexistente. “Os torcedores não tem brigado muito, apenas em jogos maiores temos algum trabalho. A rivalidade existe e esse aqui é um jogo especial, mas normalmente também vemos jogos sem brigas”, afirma.

 

Ambos os processos de humanização da torcida – o colombiano e o atleticano – são propostas para um mesmo problema, mas tem pensamentos totalmente diferentes e geram resultados igualmente diferentes. Mesmo com muito menos problemas de violência, os colombianos “confinaram” a torcida atleticana em um setor, unida, gritando, vestindo a camisa e se orgulhando de ser atleticano. Ao final ambas as torcidas se aplaudiram, cantamos “Júnior, Júnior” em agradecimento ao tratamento recebido. O clima foi de completa festa e educação em todos os momentos. É essa torcida humana que todos queremos.

 

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