Especial: A relação entre a Série B de 2012 e o título da Copa do Brasil em 2019

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Um tratado sobre a reinvenção rubro-negra iniciada no rebaixamento de 2011

O inédito título da Copa do Brasil conquistado recentemente pelo Athletico tem uma conotação simbólica dentro do processo de crescimento da equipe no futebol. O movimento emergente pode ser dividido em duas fases. A primeira começa em 1995, ano em que o Furacão venceu a Série B, e vai até 2005, temporada na qual foi vice-campeão da Libertadores. Nesses 10 anos, colocou em sua galeria de troféus o título brasileiro de 2001 e quase repetiu o feito em 2004, quando sagrou-se vice campeão. Esta fase foi marcada por um foco na formação e revelação de atletas (Kleberson, Fernandinho, Jadson e Dagoberto foram alguns dos prodígios surgidos no período) e na contratação de jogadores em condições favoráveis (entre 1999 e 2004, Kleber Pereira, Illan, Alex Mineiro e Washington foram mapeados no mercado). Um feliz período na história do clube interrompido em virtude da perda de seus valores.

 

Alex Mineiro comemoração Atlético-PR x São Caetano 2001 (Foto: Arquivo / Agência Estado)

Alex Mineiro: herói do título de 2001 | Foto: Arquivo/Agência Estado

 

A partir de 2006, o Athletico abandonou a essência inovadora que projetou seu patamar, retrocedendo a práticas comuns que os concorrentes têm como vício e que resultou no rebaixamento em 2011, momento que serviu de lição ao clube: a inovação é um processo contínuo. O Furacão soube realizar uma autocrítica durante sua estadia na Série B e já em 2013 iniciou uma nova fase para consolidar seu pioneirismo na condução de mudanças drásticas no rol das grandes equipes brasileiras. Neste mesmo portal, escrevi um artigo intitulado O Novo Athletico no Campeonato Brasileirocuja leitura não é obrigatória para o entendimento da análise que teço abaixo, mas uma leitura complementar importante para entender e aprender com o Athletico/PR, uma tarefa que todo amante e profissional do meio futebolístico deveria se empenhar em realizar.

 

O adversário vencido pelo Furacão na final, o Internacional, possui algumas semelhanças com tudo que foi falado sobre o time da Baixada: o Inter também começou o século XXI em um patamar abaixo do qual se encontra atualmente e os pilares cultivados em Curitiba também serviam como alicerce em Porto Alegre. Nos anos 2000, o Inter formou e/ou revelou atletas do quilate de Edinho e Sandro (volantes), Cleiton Xavier (meia) e Nilmar, Rafael Sóbis, Alexandre Pato, Taison e Luiz Adriano (atacantes). Sua inteligência de mercado captou alguns nomes despercebidos, como o do ex-zagueiro Bolívar, contratado em 2003 junto ao Guarani de Venâncio, e do atacante Leandro Damião, que pertencia ao Atlético Aichinger; chegaram a custo zero Índio (zagueiro), Jorge Wagner (meia) e Iarley (atacante), para mencionar alguns. Entre 2006 e 2010, o time gaúcho sagrou-se duas vezes campeão da Libertadores e levantou a taça do Mundial de Clubes e da Copa Sul-Americana.

 

Depois de 2006, o Inter ainda voltou ao Mundial, mas caiu diante do Mazembe (foto: Ken Shimizu/AFP)

Inter campeão mundial em 2006 | Foto: Ken Shimizu/AFP

 

Qual a utilidade dessas recordações para o presente e, sobretudo, para o futuro? Não há como tecer essa análise sem o lembrete de que ambas as equipes estiveram nesta década disputando a Série B – o Athletico foi rebaixado em 2011 e o Internacional em 2016. As caídas tiveram origem numa ruptura de ambos os clubes com os valores que trouxeram resultados expressivos na década anterior; é necessário investigar se a temporada na Série B serviu para resgatar o que havia sido perdido.

 

A queda para a segunda divisão é algo que os clubes buscam evitar a todo custo. Ninguém quer estar fora da elite do futebol nacional e não há dúvidas de que não há um “lado positivo” no rebaixamento. Mas há lições a se extrair e potencial mercadológico a ser explorado.

 

Uma curiosidade das passagens recentes de Athletico e Internacional pela Série B é que, apesar de serem ambos os maiores times presentes nas edições que disputaram, o acesso ocorreu sem a conquista do título. Em 2012, o torneio foi vencido pelo Goiás, que terminou sete pontos acima do Furacão e, em 2017, pelo América-MG, campeão com dois pontos de vantagem sobre o Colorado. Por ironia, tanto o Goiás quanto o América eram comandados por Enderson Moreira, treinador com passagens nas duas equipes do Sul. Mas o título da Série B não é o maior benefício que uma equipe do porte de Inter ou Athletico pode colher.

 

Historicamente, o campeonato é um celeiro de bons nomes ainda não mapeados pelo mercado, seja por serem demasiado novos ou por simplesmente terem passado despercebidos em competições anteriores – algo que se torna cada dia mais raro, a medida que cresce o foco na análise de desempenho e na prospecção.

 

A primeira Série B acompanhada intensamente por este que vos escreve foi a de 2004; naquela edição, lembro de uma leva considerável de jogadores que já performavam em bom nível e que viriam a ter grande destaque em níveis mais desafiadores. No Ituano, Pierre já demonstrava os atributos que o fariam cão de guarda no Palmeiras por alguns anos. Márcio Mossoró já apresentava o futebol que encantaria o Brasil em 2005 com o título da Copa do Brasil no Paulista de Jundiaí, e Marco Antônio (campeão da Série B com a Portuguesa e 2011 e com passagem pelo Athletico em 2013) e Jorge Henrique (campeão mundial com o Corinthians em 2012 e com passagem pelo Athletico em 2005) se destacavam no Náutico.

 

Ainda em 2004, Wagner e Fred foram contratados pelo Cruzeiro junto ao América-MG, e mesmo atletas que demorariam um pouco a despontar já davam seus primeiros indícios de que poderiam almejar esferas mais altas. Lembro particularmente de Renato Cajá, que só ganharia notoriedade pela primeira vez em 2008, realizando bons jogos pelo Mogi Mirim, rebaixado na penúltima posição.

 

Ao longo desses 15 anos, muitos exemplos foram dados de que tudo que acontece na Série B deve ser incessantemente mapeado. O Figueirense, que subiu em 2010, por exemplo, tinha em seu plantel nomes do quilate de Maicon (hoje no Grêmio), Willian (Palmeiras) e Roberto Firmino (Liverpool). O foco na prospecção, porém, não deve se restringir somente aos destaques das melhores equipes – sobretudo porque o hábito dos clubes (inclusive os de melhor desempenho) de contratar excessivamente acaba impedindo-os de perceber o total potencial de muitos dos seus jogadores.

 

Entre 2010 e 2011, o Sport teve em seu elenco o zagueiro Vitor Hugo (Palmeiras), o lateral-esquerdo Diogo Barbosa (Palmeiras) e meia Moisés (Shandong Luneng). Nenhum deles, porém, realizou mais do que 15 jogos pelo time leonino, que contratou 66 jogadores na soma dos dois anos – uma rotatividade que impede a continuidade e o desenvolvimento de atletas talentosos. Atletas que também podem ser encontrados em times rebaixados – Gabriel Xavier (Nagoya Campus) era titular da Portuguesa rebaixada em 2014, e Jobson (Santos) esteve no elenco do Náutico que caiu em 2017.

 

Dessa maneira, jogar a Série B, embora não desejável, se configura numa oportunidade de questionar dogmas, reduzir custos e realizar uma prospecção de alto nível em regiões do país que pouco se visita jogando uma Série A: o Norte, por exemplo, não tem um representante na primeira divisão desde 2005. Além disso, é um momento no qual o uso de jogadores da base no elenco principal é mais acessível, já que o desafio técnico de jogar uma Série B é menor. Podemos dizer que o Athletico cumpriu esses requisitos em 2012.

 

A tese de investimentos aplicada aos reforços foi pautada em jogadores com uma experiência (à época) recente na Série B. Naquele ano, aportaram em Curitiba o goleiro Weverton, que havia sido o goleiro titular da lendária Portuguesa “Barcelusa” em 2011; os volante Derley e João Paulo, peças-chave de Náutico e Ponte Preta, ascendentes também em 2011; o meia Felipe, que novamente na edição de 2011 havia anotado 8 gols pelo Guarani; e o atacante Marcão, que foi artilheiro do Atlético-GO na campanha do acesso em 2009 com 14 gols. O uso da base teve como expoente a utilização recorrente dos zagueiros Manoel e Cleberson, do volante Deivid e do atacante Marcelo Cirino.

 

Em defesa do Internacional, é justo mencionar que alguns dos mais importantes nomes do time de Odair Hellmann foram trazidos no ano de disputa da Série B. Victor Cuesta, Uendel e Edenilson debutaram pelo Colorado naquele sombrio 2017, mas todos eram atletas já no radar das principais equipes brasileiras, estando naturalmente inflacionados. A presença de Guto Ferreira como técnico do Inter durante boa parte da Série B acabou sendo um forte impeditivo no aproveitamento de jogadores formados nas categorias de base, já que historicamente o treinador tem um baixo índice de uso de pratas da casa. Foi assim no Bahia e tem sido assim no Sport, em 2019.

 

A principal diferença das recentes passagens de Athletico e Internacional pela Série B foi o impacto tido neste momento deficitário. A percepção do valor da Série B pelo Furacão não terminou em 2012 com o regresso à Série A. Não há como não associar, por exemplo, a artilharia de Ederson no Campeonato Brasileiro de 2013 com a decisão do Athletico, que detinha os direitos do atleta desde 2007, de aproveitá-lo após a bem-sucedida passagem do jogador pelo ABC na Série B de 2012, edição em que marcou 12 gols.

 

Dois membros estelares do atual plantel rubro-negro são fruto desse olhar aguçado para a segunda divisão: Nikão chegou ao clube em 2015 após duas excelentes exibições nas Séries B de 2013 e 2014 por América-MG e Ceará, respectivamente; a melhor fase da carreira de Rony antes de sua chegada ao CAP havia sido pelo Náutico na Série B de 2016 em que anotou 11 gols. Num patamar de menos brilho, Bruno Nazário foi talvez o principal nome do Guarani na B de 2017 – ano no qual o Internacional disputou o campeonato. E como grande promessa, Abner Vinicius foi comprado a Ponte Preta a peso de ouro.

 

Em 2016, Rony passou pelo Náutico

Rony: autor do gol do título da Copa do Brasil foi o nome do Náutico na Série B 2016 | Foto: Anderson Stevens/Folha PE

 

É claro, dizer que a conduta do Athletico no mercado se restringe a um acompanhamento maciço do que ocorre na segunda divisão seria uma ofensa a um trabalho que é conceitualmente rico. A análise do clube é pautada em diferenças frentes, entre as quais vale destacar:

 

  • A atenção aos encerramentos de contrato: uma marca do CAP tem sido a contratação de jogadores sem custo, cujo contrato com as últimas equipes foi encerrado. Foi nessa condição que o time contratou o zagueiro Robson Bambu e o meia Léo Cittani, ex-Santos, o volante Wellington, ex-São Paulo, o lateral-esquerdo Márcio Azevedo, repatriado do ucraniano Shakhtar Donetsk, e Rony, disponível após um período no japonês Albirex Niigata.

 

  • A capacidade de diluir para repor: a venda de Pablo ao São Paulo representou uma lacuna múltipla no ataque rubro-negro. Ao mesmo tempo em que perdeu o Pablo centroavante, a saída do atleta representou também a ausência do Pablo curinga, capaz de exercer diversas funções ofensivas. É claro que é difícil encontrar um jogador a baixo custo que reúna todos esses predicados, e houve o entendimento do Athletico de que seria mais fácil trazer diferentes jogadores que pudessem, juntos, munir o time com as características de Pablo. Rony, extremamente móvel, e Marco Ruben, um centroavante de alto entendimento posicional, foram as investidas feitas para repor o espaço deixado por Pablo. O Athletico diluiu suas virtudes e focou em jogadores que as tivessem separadamente.

 

  • Empréstimos como uma exceção: montar seu plantel com atletas emprestados de várias equipes é um grande risco a médio/longo prazo, pois existe pouco poder de retenção do clube “receptor” e uma baixa margem de barganha em caso de negociação. Ainda assim, o uso inteligente deste recurso é interessantíssimo como uma alternativa barata de complemento do elenco. Fazendo dos empréstimos uma exceção e não a regra, o Athletico trouxe Marco Ruben em parceria com o argentino Rosario Central e Thonny Anderson num acordo com o Grêmio.

 

  • O entendimento de que a Série B não é o submundo: para quem está acostumado a jogar a primeira divisão, a segunda pode parecer o fundo do poço, mas a verdade é que ela não representa o submundo do futebol. Há mais de 700 clubes profissionais no Brasil e as Séries A e B contabilizam apenas 40 times. Há um vasto mercado a ser explorado abaixo dos dois principais níveis, e isso não tem sido ignorado pelo CAP. Em 2013, por exemplo, o clube foi buscar a custo zero no Cuiabá (Série C), o lateral-esquerdo Natanael, que se tornou titular na Baixada e foi vendido ao búlgaro Ludogorets por R$ 5 milhões. Já percebido pelo mercado inflacionado, hoje o jogador é parte do elenco do Internacional. O magistral Bruno Guimarães foi comprado após atuações de destaque na Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Audax. Recentemente, o Athletico trouxe também a custo zero o goleiro Anderson, destaque do Santa Cruz na Série C, e fez um aporte de R$ 1 milhão no atacante Elias, também do Santa Cruz.

 

Embora o Athletico já tenha feito mais do que o suficiente para romper a ordem tida por muitos como imutável no futebol brasileiro, ultrapassando muitos dos clubes do conhecido “G12” em performance ao conquistar títulos que alguns deles não ostentam, o Furacão ainda se mostra faminto. O clube percebeu a relevância da análise de mercado e segue realizando movimentos com direção à excelência. Um deles foi a contratação de Bolívar Silveira, que produzia no Footure conteúdo ligado ao futebol sul-americano e foi parte da criação do Footure PRO, empresa consultora no âmbito da análise de desempenho e mercado. Há no Athletico o entendimento de que as vitórias nas próximas temporadas começam com as ações de agora, de forma que, desde já, é recomendável apostar no Furacão em caso de uma nova disputa com o Internacional.

 

A veia inovadora que corria no Colorado nos anos 2000 parece cada vez mais seca – não apenas em 2017 não houveram movimentações sustentáveis como em 2018 e 2019 o clube parece perdido em suas ações no mercado. O Internacional teve em suas mãos a mesma oportunidade que o Furacão identificou: a de desvendar os talentos futebolísticos escondidos Brasil afora. Um exemplo extremamente didático para a baixa capacidade perceptiva do Colorado é o meia Thaciano, que hoje integra o elenco do Grêmio. O jogador teve um desempenho de excelente nível na Série B de… 2017. Aquela mesma em que o Inter estava presente. Em 2018, ele chegou a Porto Alegre para atuar no maior rival do clube, vindo do Boa Esporte. A verdade é que nenhum dos talentos presentes naquela edição do campeonato, como os zagueiros Iago Maidana e Eduardo Brock (à época no Paraná) e Messias (América-MG), o volante Jobson (Náutico) os meias Bruno Nazário (Guarani) e Renatinho (Paraná) e os atacante André Luís (Santa Cruz) e Lucão (Criciúma) veio a jogar no Internacional. E não parece haver no clube uma tese de investimentos que norteie a busca por reforços. O Inter perdeu uma excelente oportunidade de se reinventar.

 

A merecida vitória do CAP na final da Copa do Brasil não foi reflexo somente da qualidade de seu grupo de jogadores, mas também do processo de montagem desse grupo. Foi uma vitória da instituição rubro-negra, mas também do futebol pensado e estudado. Como já havia sido a da final da Copa Sul-Americana, em 2018. E como certamente serão as próximas. O futuro, para o Athletico, já começou.

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