Jackson do Nascimento: o torcedor que é parte da história atleticana

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A história de Jackson se entrelaça à do Furacão, inclusive pelo apelido que é sinônimo do Athletico

Hoje é um dia de comemoração para o Athletico e seus apaixonados torcedores. No dia 26 de março de 1924 surgia o Clube Athletico Paranaense. A junção dos clubes Internacional e América foi uma das fusões mais benéficas da história do futebol paranaense. São 95 anos de história resumidas em conquistas importantes no presente e glórias do passado, como anuncia o hino rubro-negro.

 

Para contar essa história, um personagem que viveu boa parte dela, seja como torcedor ou jogador do Athletico. Jackson Nascimento, meio campista esquerdo do Athletico entre os anos 1940 e 1951. Segundo maior artilheiro da história atleticana, atrás somente de Barcímio Sicupira. Curiosamente, Jackson também nasceu em 1924 e no próximo mês completa os mesmos 95 anos que o Athletico.

 

Nascido em Paranaguá, mas com boa parte da infância vivida em Antonina, Jackson teve contato com o futebol desde criança. “Eu adorava jogar, meu pai me dava uma bola de presente todo natal”, conta ele. Ainda jovem se mudou para Curitiba para completar o ginásio, equivalente ao ensino médio atual, no colégio Rio Branco, que na época era interno. Naquela época, ele já conhecia o Athletico, era o time do pai dele e aos poucos o gosto foi passando de pai para filho.

 

O responsável direto para que Nascimento entrasse para o Athletico foi o doutor Aníbal Borges Carneiro, que era dono do colégio onde ele estudava. Atleticano e homem de grande importância no cenário local, como explica Jackson. “Ele procurou a mim e meu pai que era atleticano e deu tudo certo, eu fiquei interno no colégio e comecei a jogar no médio do Atheltico em 1942. Naquela época não existia outras categorias e fomos campões duas vezes”.

 

Não demorou muito para que o jovem talento fosse reconhecido pelo time principal. Jackson entrou para a equipe de cima em 1944 após a saída de Lupércio. Começou jogando pela direita, mas logo foi trocado para a esquerda. Lá ele formou uma dupla de sucesso com o atacante Cireno, assim como outras duplas que marcaram a trajetória atleticana: Washington e Assis, Paulo Rink e Oséas, Alex Mineiro e Kléber Pereira, entre outras.

 

Em 1949 o Athletico foi campeão paranaense com incríveis 49 gols, equipe essa que foi chamada pela primeira vez de “Furacão”, mas de acordo com Jackson, o apelido veio de longe… “Nós fizemos três amistosos no Paraguai, ganhamos dois e perdemos um, foi quando os paraguaios começaram a nos chamar de ‘El Furacón’. Nosso time ganhava de quatro, cinco gols e a imprensa paraguaia começou a reproduzir esse apelido”, conclui ele.

 

Jackson é o quarto da direita para a esquerda na linha de cima. Foto: Alexandre Alliati/Globo Esporte.

 

Sobre suas técnicas, Jackson diz que era difícil algum jogador parar ele. Suas armas eram o drible e a velocidade e por ser um jogador equilibrado, foi agraciado com o prêmio Belfort Duarte, conquistado por nunca ter recebido uma expulsão na carreira. “Uma vez eu cheguei a sair de campo por expulsão, mas voltei porque era erro do árbitro”, comenta ele em tom de humor.

 

Entre 1951 e 1952, Jackson defendeu o Corinthians, mas logo voltou ao Athletico e também para terminar seus estudos na área de direito, algo que ele valoriza muito. “O jogador precisa ter estudo, ter cultura, o futebol para mim não era uma profissão, era uma arte, o jogador é um artista. E naquela época nós nos preocupávamos com isso, o atleta representava a alta classe da sociedade, éramos chamados de ‘Doutores do Futebol’”, ressalta ele.

 

Sobre o time atual do Athletico, Jackson não tem muito conhecimento, a idade já não permite que ele acompanhe fielmente os jogos do Athletico, seja em casa ou indo à Arena da Baixada. Sobre o título expressivo da Copa Sul-Americana, ele diz não ter assistido muitas partidas. “Vi poucos, mas esta equipe do Athletico é como as outras que vi jogar, é uniforme, consistente e perde pouco”, afirma ele. Referente ao técnico Tiago Nunes, ele comenta não ter conhecimento para avalia-lo, mas por ter sido campeão, acredita que o professor está conduzindo bem o time atleticano.

 

Sua principal lembrança do Athletico é o memorável time de 1949. “Lá eu jogava com vários amigos! Amigos não só de vestiário, mas aqueles que iam nos visitar, saíamos pra pescar e até tomar uma cervejinha quando era liberado. O Athletico era minha casa”, comenta ele.

 

Foto: Alysson Moura

 

Para os próximos anos de vida do Athletico, seu Jackson explica que o primeiro de tudo que o clube tem que fazer é pintar a Arena da Baixada. “Tem que trocar aquelas cadeiras cinzentas por vermelho e preto, esse é o primeiro pedido que eu faço”, comenta ele rindo. “Sobre o futebol, tem que investir, tem que gastar com futebol porque se depender de público não vai ter retorno, o estádio não chega a 20 mil torcedores. E isso é outra coisa que o clube tem que fazer, valorizar o torcedor”.

 

Foram dez anos se dedicando ao Athletico. Nem quando defendeu o Corinthians, Jackson deixou de ver os ex-colegas de grupo ou de torcer pelo Furacão. Ele encerrou a carreira em 1954 e integrou a comissão técnica do rubro-negro de 1958, quando o time foi campeão paranaense. Trabalhou como advogado da União até 1981, quando se aposentou. Nas horas vagas, seu Jackson costumava pescar e caçar com os ex-colegas de time. Hoje, ele é o único representante vivo daquele Furacão que entrou para a história.

 

Para finalizar, pergunto sobre sua principal conexão com o Athletico, como ele define essa relação. “O Athletico foi minha juventude. Nada mais importante que o Athletico me seduziu naquela fase da minha vida, com exceção da minha esposa” afirma ele com um sorriso no rosto. “Eu me preocupava com o Athletico, queria ensinar o que eu aprendi para os demais jogadores”, explica ele. Atualmente, Jackson leva uma vida tranquila com sua esposa Glycínia, no apartamento no Água Verde, a poucas quadras da Arena da Baixada, local onde boa parte de sua história foi escrita junto à do Athletico.

 

Jackson ao lado da esposa Glycínia. Foto: Alysson Moura

 

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